20 fevereiro 2019

Colares, intemporal





Esta carta tem Amor por todo o lado. 

Do nosso, meu e teu, Pai, do que tens por mim e eu por ti, 

Do que tens pela mãe Teresa e ela tem por ti. 

Do que tenho por ela, e ela por mim. 

Do que temos e vivemos com os outros, 

Com cada um de vocês.


Com a palavra Obrigado começo. 

E ela estende-se ao longo desta carta, estende-se na minha vida, ela está 

subentendida: 

um Obrigado que vem de antes do meu nascimento e vai até para lá, pelo 

menos, até ao meu corpo falecer.


Carta aberta para ti pai, 

Uma folha vazia espera por palavras e ideias ao acordar: na casa enorme, sem 

ti, Pai Fernando, preenchida pelo teu carisma, zonas particulares muito tuas, 

pela história que deixaste nela… tuas ideias, teus gestos, textos, rotinas e 

palavras.

No livro Passos em volta do Herberto Hélder há uma excerto que sinto poder ser 
dito por ti:

Eu sou alimentado pelos séculos, vivo afogado na história de outros 
homens.

Ora um pai é intemporal, não todo e qualquer pai mas tu pai és intemporal,
 criaste os alicerces dos edifícios que sou; escrever para ti é escrever sem tempo
 ou com todos os tempos: és passado, és presente e és futuros que lanças. 

Fica a tua memória viva em nós!




Privilégio… 

É a palavra que me persegue desde a tua morte.

Privilégio é o que sinto por te ter na vida; continuarás a viver em mim, de espírito 

e memória leve, alegre e pensada; 

Um privilégio bem ganho e não perdido.

Um privilégio que nasceu, cresceu, envelheceu, viveu, criou memórias e abre 

futuros.

Ensinaste que devo viver a vida como um privilégio e não como um direito.

Ficas vivo em mim, foste uma vida vivida até ao fim, porque se há melhores 

formas de morrer, tu foste uma delas com certeza: viveste a vida toda, viveste-

a bem.

Falavas muito em morte e, dizias, que a nossa cultura fala menos em morte 

do que devia; devia ser um assunto mais natural, mais comum, talvez se nos 

preparássemos melhor, não nos custasse tanto ser apanhados de surpresa, 

talvez…

Não estávamos à espera da tua morte, era futuro, não sabíamos como ia ser, 

felizmente.

Com 85 anos (mais os nove meses que lembravas sempre, tão teus) já não 

eras novo, tiveste uma vida cheia de mundos onde foste forte em cada um 

deles, a tua chegada anima e é boa; a partida, o adeus custa, não é bom e 

tentamos encontrar as melhores formas de viver teu luto.

Só sentimos saudades do que é bom e nos faz falta.

Parece que foste para uma viagem longa e vais voltar, voltas muito em memórias,

vejo-te em todo o lado a sorrir; mais que um pai, foste um amigo que gostamos de 

ter e ser, sempre lá sorridente, em todo o lado e altura; pedes que continuamos a 

estrada olhando de frente e de cima para os desafios que a vida nos trará. 


Quero deixar uma homenagem pelo homem admirável que és alguém que 

partilhou o pão connosco, um companheiro!

Sem dar por isso, vamos sendo tu, fruto do tempo vivido contigo.

Muitas coisas mais deixaste em mim, tive o bom sabor, o prazer de te ter ao meu

 lado no final da vida, nestes últimos doze anos desde 18 de Novembro de 2006:

 estiveste lá a acompanhar-me em todas as alturas e lugares com teu apoio e 

como soubeste fazê-lo bem.

Diz quem sabe que o acidente foi uma forma de te dar vida e trazer de volta para o

 mundo, de novo, o ‘há males que vêm por bem!’ de que somos cúmplices.


E a memória: vejo-te em todo o lado a sorrir e a pedires para que continue cada vez

 mais erguido e a falar melhor, assim o farei levando o teu testemunho sempre.

Tens qualidade cinéfila: muitos e normalmente, bons filmes, um por semana, melhor

aram nossa vida conjunta: um ciclo do Bergman, Chavela Vargas, a Fábrica do 

Nada, Bohemian Rhapsody e Patterson são alguns dos que me lembro; não íamos 

ver americanadas, xaropadas: tinhas qualidade na escolha.

Os textos lidos por ti ganhavam admiração, beleza; não perderam nada: mudaram 

leitores, vozes, histórias e ganharam exigência.

Tiveste uma terceira idade activa onde passeámos imenso: eu à frente com

 tripé e tu vigilante atrás é a nossa imagem de marca que fica.


Deixaste-nos a responsabilidade de fazermos por viver bem!!!

Apesar de tudo, Tu já não eras novo (85 anos), Já sou do século passado, 

vivo já há 18 anos num século que não é o meu, usurpei-o, dizias e tiveste 

muitos mundos em que foste forte, onde criaste uma personalidade com 

quem sabia bem estar ao lado.

E, todos gostávamos que a nossa imagem final representasse a que tu 

ganhaste: alguém que não foi + ou -, que tornou o mundo melhor e que 

não passou indiferente por esse mundo.

Olhando, de relance, agora, vejo muitas caras amigas, olhares bonitos que 

deixam certezas de que viveste bem e és muito acarinhado: Parabéns 

também por isso!

Boas coisas era o teu desejo de marca favorito e com Boas coisas me 

despeço, com amor do teu sempre Zé Maria

Com a palavra Obrigado acabo! 


Foste um pai

formidável Fernando Belo

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