17 fevereiro 2018

fazem-se coisas giras por aqui!!!



Chama-se Cassete Pirata e é óptimo!





se eu fosse ... (António Guerreiro)


Se eu fosse paneleiro — na verdade, ninguém pode garantir que eu não seja, não tenha sido ou não venha a ser — e ocupasse um cargo político nunca aceitaria o protocolo da confissão, dizer o que se é àqueles que o não são. Não para manter o “segredo”, mas para não me submeter à regra da autentificação pelo discurso da verdade, tão aplaudido pelos que acham que a sua verdade é diariamente autentificada pelas evidências. 

Se eu fosse paneleiro — para usar uma forma especulativa que pode referir-se ou não a um estado de facto — também amaldiçoaria o dia em que, por palavras ou actos, me deixasse sujeitar pelo discurso odioso dos que descobriram que o seu alto teor de aceitação da homossexualidade é uma marca de distinção — de modernidade, de progressismo, de “estilo” — e um capital cultural para ser exibido publicamente, sobretudo quando lhes é oferecido o exemplo do homossexual bonzinho e ao serviço da homonormatividade, o amigo gay que todos temos. 

Se eu fosse paneleiro — e, dizendo isto, não estarei já a inscrever-me numa “homossexualidade molecular”? — o que eu não riria da homofilia editorial do Expresso,
que anunciava a “confissão” do dirigente do CDS como uma notícia que não devia ser notícia mas que ainda tem de ser notícia. O que se pode ler nesta fórmula retorcida é que obter de alguém a afirmação “eu sou gay” merece sempre uma nota editorial, que é a notícia da notícia, ou a notícia que reflecte sobre si própria para dizer que aquilo só é notícia para alguns atrasados, ignorantes e preconceituosos que a vão tratar como tal, apesar de ela ser feita por quem acha que não devia ali haver notícia alguma. É notícia porque “o mundo é o que é, o país é o que é, a sociedade em que estamos inseridos é o que é”, reafirma um jornalista noutra página do mesmo jornal, também a propósito de Adolfo Mesquita Nunes. 

Se eu fosse paneleiro e pleno de perfídia — hoje, contraí um apego aos atributos que começam por “p” — diria gentilmente ao simpático autor desta proposição lógica que aquilo a que os franceses chamam “bêtise” (e que eu não vou traduzir por “estupidez” porque seria uma tradução pouco correcta e indelicada para o visado), pode ser exemplificado — dizem os tratados sobre tal matéria — pelo uso abusivo e hiperbólico do princípio da identidade, exibindo-o de maneira peremptória, como na frase “O mundo é o que é, o país é o que é”. E o que é um gay hoje, daqueles que fazem os jornais, as revistas e as televisões olharem para si próprios com orgulho por estarem tão à frente do país que “é o que é”? É uma marca, uma sexualidade branca ou um turista do sexo, conforme a um modelo unissexual. 

Se eu fosse paneleiro e político — malditos “pês”, que afluem como em hora de ponta, salvo seja — ficaria sempre calado para não ser transformado num estereótipo do homossexual de Estado, a não ser que aspirasse precisamente a essa condição. O que o Expresso revelava este fim de semana como uma verdade de primeira página é afinal uma mentira: Adolfo Mesquita Nunes não assumiu nada porque também não há nada a dissimular, não mostrou nada porque já não há nada a mostrar. O único objectivo que alcançou foi ter deixado que fizessem dele um cromo do ideal do Kitsch. Se eu fosse paneleiro — estribilho infame a que vou pôr fim — teria exultado com o que vi este fim-de-semana: o “orgulho gay” instalado em jeito de parada no Expresso, reivindicado no editorial, e gritado como palavra de ordem pela presidente do CDS.

 NOTA: No título, a palavra “paneleiro” é substituída por três pontos. Não por motivos de censura ou auto-censura, mas porque seria um foco de atracção dos clicks. Antes paneleiro que populista. 

AFAS - Associação de Famílias e Amigos dos Surdos

Informo que o Festival da Canção de 2018 vai ter Língua Gestual Portuguesa no sítio da Internet da RTP. 

Uma equipa de Surdos e Ouvintes mostrará que a música é mesmo para todos -  vídeo em: https://www.facebook.com/festivaldacancao/videos/10155300370452057/ .

Datas:
- 1a Semi-final, 18 de Fevereiro;
- 2a Semi-final, 25 de Fevereiro;
- Final, 4 de Março.


Com os melhores cumprimentos,

A Direção da AFAS


AFAS - Associação de Famílias e Amigos dos Surdos - 20.º Aniversário
Rua C, Bairro da Liberdade, Lote 12 – Lj 18 - R/Chão, 
1070-023 Lisboa (Campolide)

Tlf: 21 387 9303 - E-mail: afasurdos@gmail.com

15 fevereiro 2018

RTP 2015/2018 — O que fizemos (Nuno Artur Silva)


Fez esta semana três anos que entrei como administrador na RTP, com a responsabilidade da área dos conteúdos. Agora que estou de saída, aqui deixo umas notas sobre o trabalho feito.


Fui alvo de uma campanha difamatória reles, miserável, sem escrúpulos, lançada precisamente neste momento com o intuito de impedir a minha continuidade na administração da RTP", escreve Artur Silva, que adianta que a "campanha" de que terá sido alvo, foi "bem sucedida".


1. Fomos a primeira administração da RTP que não foi nomeada por um governo ou um poder político, mas sim por um Conselho Geral Independente.

Este é um modelo que defendo desde a primeira hora e que é um ganho civilizacional no sentido em que reforça a definição da RTP “como uma estação pública e não como uma estação do Estado”.

Antes de ser oficialmente nomeado, foi-me exigido que deixasse todos os cargos de administração que tinha nas minhas empresas, o que, obviamente, fiz. Ficou também estabelecido que a RTP não teria qualquer relação comercial, que não faria qualquer negócio, com qualquer empresa de que eu fosse accionista. O que foi escrupulosamente cumprido nestes três anos.

Foi-me perguntado se eu punha a hipótese de vender as minhas empresas. Ao que eu respondi que sim, desde que tivesse uma boa oferta. O CGI referiu que seria melhor se o fizesse, mas nunca colocou a hipótese como uma condição.

2. Sobre o Serviço Público de Média há muito o hábito de dizer que ninguém sabe o que é. Eu discordo. Há muito texto publicado, muitos artigos sobre o que devia ser o Serviço Público de Média, como deveria ser a RTP. Eu próprio escrevi muitos textos sobre o assunto antes de vir para este lugar. Sempre me pareceu que, por mais voltas que se dê, tudo se pode resumir a uma aposta em três generalidades: diversidade, qualidade e independência.

No momento em que iniciámos o mandato, a frase de que me lembrava era a de Almada Negreiros: “Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa — salvar a humanidade.”

No caso da RTP, só faltava fazer. Fazer mais serviço público. E não perder tempo.

Primeiro princípio genérico: a RTP é o conjunto dos seus canais e plataformas de rádio, televisão e online/multimédia (por oposição a uma RTP totalmente focada na RTP1, que deixava o resto a ser só o resto).

Cada canal deve ter uma identidade e idealmente uma direcção autónoma com uma lógica de programação própria e distinta dos outros.

Todos os conteúdos devem ter uma outra existência individual e ficar, de acordo com os direitos de autor negociados, disponíveis no RTPPlay e acessíveis por qualquer meio e dispositivo.

Encontradas as equipas directivas, começou a fazer-se o caminho deste princípio.

Começámos pela Antena3. Em vez do perfil de “rádio jovem” partiu-se do conceito de rádio pop, não só da música pop, mas da cultura pop. E, por diferenciação da pop mais mainstream, presente nas rádios comerciais, ser “A Alternativa Pop”. Com menos playlist e mais programas de autor. Curadorias musicais. E humor, novo humor.

Outra prioridade foi fazer do site da Antena3 o canal de música que a televisão sempre quis ter e que hoje só faz sentido ter online e on demand. E para esse canal (muitas vezes em parceria com a RTP2 ou a RTP1) gravar programas sobre bandas, editoras, concertos. Criar património visual para o futuro. E alargar a outras áreas como as artes plásticas ou a fotografia.

Depois, foi a Antena2. Em vez do perfil da rádio da música clássica, alargar o conceito a rádio não só da música, mas da cultura erudita e de públicos mais minoritários. E, tal como acontece com a Antena 3, fazê-la ter mais presença fora da antena. Desde logo dando mais força ao excelente Prémio Jovens Músicos, ou marcando presença forte em eventos como Os Dias da Música do CCB, mas sobretudo lançando o Festival Antena 2, no Teatro da Trindade.

A Antena1 não teve grande alteração. É uma rádio generalista, sobretudo uma rádio de palavra, com múltiplos programas e rubricas de autor. E com uma componente de informação que sempre pensámos podia ser reforçada, em particular no período da manhã e com maior abertura para as breaking news.

Do lado da televisão, começámos pela RTP Memória. Entregámo-la à equipa mais jovem da RTP, a equipa do Centro de Inovação, e o desafio foi simples: a partir do arquivo da RTP e de conteúdos internacionais que fizeram a história da televisão, elaborar uma programação de revisitação do passado à luz do presente, misto de memória, nostalgia e ironia do design geral do canal aos conteúdos específicos. Cruzando uma lógica evocativa e sinalizadora das efemérides com celebrações nostálgicas de estética retro.

Quanto à RTP 2, o desafio da conciliação das várias missões do canal (cultura, infantil, desporto amador, sociedade civil, religiões...) não facilita a definição de uma identidade.

Optou-se por destacar, no horário nobre, a componente cultural reforçando a linha de programação de séries estrangeiras dos diferentes países europeus, com as suas diversas línguas (por oposição ao domínio anglo-saxónico do cabo); e complementá-la com três linhas de programação de cinema — ciclos temáticos, cinema português e Tudo Menos Hollywood (que é auto-explicativo).

Retomou-se a programação de concertos, óperas, bailado e teatro, ao fim-de-semana. E a RTP voltou a gravar peças de teatro português.

Mas uma das decisões estratégicas foi não concentrar “a cultura” num único canal. A cultura deve ser absolutamente transversal a todos os canais da RTP.

Quanto à programação infantil, o que fizemos foi desenvolver a marca ZigZag, nome dos períodos de programação infantil da RTP2, e criar a Rádio ZigZag, a app, os eventos ao vivo e a colecção de livros (a sair na primavera). E propor a todas as crianças o acto de ziguezaguear pelos vários suportes à descoberta do universo ZigZag, sempre num ambiente de total protecção para descanso de todos os pais.

A RTP1, praça central generalista da RTP, foi onde aconteceu a mudança mais significativa e arriscada do nosso mandato. E nunca será demais realçar o corajoso trabalho que o Daniel Deusdado fez, com os mais baixos orçamentos de sempre da RTP1 para programas.

Primeiro, regressámos ao padrão europeu acabando com a programação horizontal e com as telenovelas (ou derivados) no prime time e apostando numa programação diversificada onde — combinados com produtos premium de grande audiência, como o futebol da Champions ou formatos internacionais de grande qualidade — se investiu em formatos originais nacionais e, sobretudo, naquilo que lamentavelmente não havia em Portugal: uma indústria de produção de séries, o género actualmente mais popular e mais prestigiado em todo o mundo. O que foi feito foi um começo. E só a continuidade da aposta na diversidade das propostas pode garantir o aparecimento de uma nova geração de argumentistas e produtores especializados e de qualidade.

Outra imagem de marca deste mandato são os documentários. Os de cultura da RTP2, os de “current affairs”, da RTP3, e os dos grandes temas programados no horário nobre da RTP1, com audiências de meio milhão de pessoas como foi o caso do Planeta Azul ou do extraordinário 2077 – 10 segundos para o futuro, uma encomenda da RTP em negociação para venda em todo o mundo (ambição que queremos estender a outros conteúdos, e para qual estamos a trabalhar num catálogo de conteúdos nacionais com potencial de divulgação internacional).

A relação com a produção independente foi uma prioridade, nomeadamente no sentido de abrir a possibilidade de mais produtores, e autores de diferentes e variadas características, poderem apresentar projectos à RTP. Foram abertas Consultas de Conteúdos anuais para Conteúdos Audiovisuais, Cinema, Online e Rádio, onde todos podiam apresentar projectos de acordo com os requisitos pedidos pelas diferentes direcções de conteúdos.

E para superar os baixos orçamentos disponíveis e reforçar a vontade de fazer conteúdos para todo o mundo, temos incentivado activamente as co-produções internacionais.

Mas também voltámos a produzir internamente os programas do daytime, nomeadamente o Praça, que regressou ao Centro de Produção do Norte (que, aliás, voltou a ter grande actividade, tal como o Centro de Produção de Lisboa).    
E depois houve a reformatação do Festival da Canção, trazendo uma vida nova a esta marca da RTP com a presença dos melhores músicos pop portugueses. E este ano alargado a músicos com actividade em Portugal numa abertura a toda a comunidade africana e brasileira, entre outras, que são sinal da diversidade da cena musical em Portugal.

A extraordinária vitória no Festival da Eurovisão trouxe para a RTP a organização do maior evento musical do mundo. Não tenho dúvidas: vai ser um sucesso. Com a particularidade de todo o conceito, conteúdo e imagem serem criados e definidos por equipas RTP.

Esta mudança foi elogiada a nível internacional e considerada um case-study(aliás, a EBU tem mostrado curiosidade pela mudança que temos vindo a fazer na RTP e, se não fosse a minha saída da RTP, teria estado esta semana em Bruxelas, a convite da direcção da EBU para apresentar o nosso plano estratégico).  

Do lado da Informação, quer da rádio, quer da televisão foi feito um caminho para tornar a Informação da RTP mais credível, independente, plural e longe da lógica tablóide que ameaça o jornalismo. Foi também iniciado um esforço, ainda não suficiente, para reduzir o espaço do futebol nos noticiários generalistas e do comentário futebolístico (mas a RTP também se distingue pela qualidade das suas equipas de desporto — veja-se a excepcional cobertura do Euro 2016 — e por privilegiar a discussão sobre o jogo em vez do fanatismo clubístico).

Reforçou-se a oferta de informação internacional, regional e cultural. E alargou-se o perfil ideológico dos comentadores, tornando-o menos partidarizado.

Foi igualmente relevante a iniciativa estratégica definida desde a primeira hora de, na rádio e televisão, acabar com os espaços de comentário político individuais sem contraditório, nomeadamente de dirigentes partidários de primeira linha ou de deputados do Parlamento português. Uma separação que nos parece clarificadora e diferenciadora no actual panorama televisivo. Mas precisamos de mais reportagem, de mais investigação, de mais activação das delegações regionais e africanas.
Fundamental foi a mudança da RTP Informação para a RTP3, criando uma nova imagem e um novo conceito para o canal de informação da RTP (cada vez mais devemos falar, mais do que em Informação, em Jornalismo).

Aliás, a nova imagem gráfica dos vários canais da RTP tem sido fundamental na percepção da mudança. Muito particularmente os separadores da RTP 1 encomendados a artistas plásticos e músicos (algo inédito em canais generalistas a nível mundial).

Podia falar de muitas coisas mais que fizemos: da nova estratégia para a RTP Internacional; da RTP África e da sua abertura para as novas gerações africanas mais cosmopolitas; dos Centros Regionais, e em particular da renovação das instalações nos Açores; do digital, das newsletters, do extraordinário potencial de desenvolvimento do RTPPlay e dos conteúdos directos para o online; do Ensina; dos Livros RTP; das parcerias com inúmeras instituições de prestígio...

Falarei só para fechar daquilo que talvez seja o mais importante: não só a ida da RTP3 e da RTP Memória para a TDT, mas sobretudo do RTP Arquivos, a abertura do arquivo da RTP a todos, de forma gratuita, cumprindo o princípio essencial da não exclusão e da igualdade de acesso para todos. E da ligação que vai ser feita com as escolas de todo o país.

Muita coisa ficou por fazer. No imediato e numa lógica de futuro.

Por exemplo, a passagem dos conteúdos da RTP Memória para conteúdos transversais aos vários canais e a transformação da RTP Memória num canal infantil, a RTP4, com conteúdos portugueses, tão necessários para colocar na RTP Internacional, para as segundas gerações de emigrantes (possibilitando igualmente à RTP2 um reforço da sua componente de canal cultural).

Mas, para se conseguir mais e melhor, é preciso continuar a exigir um aumento da contribuição audiovisual (que é escandalosamente baixa segundo os padrões médios europeus), com a contrapartida de oferecer conteúdos cada vez mais diferenciadores da oferta privada.

3. Não estava a contar sair no fim deste primeiro mandato (sobretudo, não desta maneira e pela razão invocada). Mas saio muito agradecido pela extraordinária oportunidade que me foi dada pelo Gonçalo Reis, que me convidou, e pelo CGI, que me nomeou. Foram três anos intensos de grande trabalho de equipa, também com a minha colega Cristina Tomé.

E aproveito para agradecer aqui o trabalho de todas as excelentes equipas da RTP com quem trabalhei.

Também não quero deixar de referir a inesperada e, para mim, comovente manifestação de tantas e tantas pessoas, entre as quais tantas que tanto prezo, que fizeram questão de me apoiar e que me honram mais que tudo pelo que disseram de mim e do meu trabalho. Não esquecerei.

Tenho a certeza que o Gonçalo Reis e o Hugo Figueiredo (que conheço e em quem muito confio) continuarão a estratégia que iniciámos, com as orientações gerais do CGI.

Saio muito honrado por ter tido esta oportunidade e por ter podido contribuir dando o meu melhor a partir deste lugar privilegiado para esta extraordinária instituição de serviço público, a RTP.

Autor e administrador cessante da RTP





12 fevereiro 2018

que maldade...



THE VOICE 2018  Mennel  chante Hallelujah de Léonard Cohen version longue



Mennel é esta linda menina com um enorme talento que participou no The Voice francês e (vejam link) sentiu-se forçada a desistir depois de passar esta prova.

 O que aconteceu foi que encontraram tweets da altura dos atentados de Nice (Julho de 2016) em que ela deu eco a teorias da conspiração (muito presentes em França). 

Do tipo: têm a certeza de que isto é obra dos islamistas? 

Ou: os verdadeiros terroristas são os que nos governam. 

Portanto, é acusada de cumplicidade moral com terroristas.

Que vergonha!


STOMP | Fevereiro 2018



O espectáculo de Stomp foi do outro mundo... foi bom a todos os níveis, coordenação, sintonia, humor, som, interacção com o público, luzes em 8 actores com desempenhos diferentes unânimes na qualidade: 

o gordo, 

o magro, 

o forte, 

o das palmas, 

o alto, 

as duas raparigas (estupidamente não sei distingui-las...)  

mais 'normal!

era tudo tão bom, tão novo, tão brilhante e criativo; todo o público sentiu-se inundado por uma energia boa energia; foi mesmo fixe, giro!

07 fevereiro 2018

gostares de palavras...


De as escreveres;

Escolher e encadear em frases e textos, sentir ritmos e sons letrados, formas escritas, pensar nas ideias que sugerem e criam; escrever faz pensar!


De as dizeres;

Faz-me sentir humano, o dom que transportamos de ter sempre connosco as sílabas, falar não é nada fácil, não, não mas se fosse fácil não tinha piada!

Implica tempo, sossego, pensamento, deslizar na ternura suave e doce delas, das palavras! 


De as leres;

E entram pensativas no nosso corpo às vezes/muitas deitado (é mais directo aos sonhos a posição horizontal...), para leres bem tens de estar SEMPRE para isso preparado, concentrado mesmo se a leitura pode ser mais mole e parva.


De as ouvires e entenderes;

Implica teres acedido a um código que ensina a língua para entenderes mas não é preciso compreenderes para gostares do som das palavras, estrangeiro desconhecido pode ser muitas vezes mais gostoso do que quando entendes o que é dito e vice versa.


De as cantares;

A voz pode ser muito boa e a canção horrível ou vice versa e apoiam-se uma à outra ou não.


De as murmurares;

O sussurro bem feito entra directo e é formidável;


De as saboreares;

Falar por sílabas tem o seu encanto, dar-lhe força e leveza, criar agudos e graves, 


De as soltares;

Inspirar e descarregar num alívio como quem expira;


E de berrares as vogais:

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

OOOOOOOOOOOOOOOOOOOO

UUUUUUUUUUUUUUUUUUUU


05 fevereiro 2018

Amor em Sacavém

Ainda lá está. Já curvada, mas com raízes mais profundas. Foi junto dela, uma árvore jovem, que pedi namoro à miúda mais bonita do liceu. Eu, um rapaz desengonçado e tímido, enchi o peito de ar e pensei que também era capaz. O sim ou o não ficaram adiados para o intervalo seguinte. Faltei a Português e fui afogar a ansiedade em cerveja. A hora chegou. Não podia adiar. E o sim derrotou o não. O que parecia um atrevimento momentâneo de um desengonçado transformou-se num amor de anos. 

Atravessámos todas as descobertas próprias de quem nunca tinha amado. Trocámos milhares de verbos e adjectivos escritos à mão em cartas transportadas pelos correios públicos e cumpridores. Fizemos juras de amor eterno. Projectámos um futuro risonho. Foram anos assim. Uma maratona suada de olhares cúmplices e ternuras de pele. E quando a meta da maratona já se via lá ao longe, as cartas acabaram, o telefone não tocou mais, as mãos não se voltaram a entrelaçar e a ternura desvaneceu-se. Nunca. Nunca dissemos um ao outro a palavra “acabou”. Faltou coragem. Ficámos em suspenso como que ligados ao ventilador. 

É bom fechar os olhos e percorrer a fita do tempo. É bom quando a fita nos dá prazer. Nos ensina. O tempo tem destas coisas. Não me importo nada de estar a envelhecer. Quando passo junto à imponente fachada do antigo liceu, olho sempre para a árvore, agora já curvada como eu. Ganho força. Amor. Palavra quase proibida. Fora de moda. Antiga. Que não se usa. E o mundo necessita tanto dela. 

Hoje quase nos espezinhamos. A ganância não olha a meios. Somos máquinas de carne. Máquinas do dinheiro. Alucinados e convencidos de que temos uma vida feliz. É natural ouvir o chavão que o mundo mudou. Mudou? Somos modernos. Evoluídos até. É moderno não ser trabalhador, mas colaborador. Não ter um emprego, mas ser precário. É moderno reduzir a massa salarial e ser despedido. É moderno viver na rua porque é um modo de vida. Chamar aos direitos privilégios. É moderno morrer por falta de um exame médico, porque se tem de poupar. É moderno aumentar os lucros para a economia florescer. É moderno desviar em vez de roubar. Segregar em vez de integrar. É moderno ter, afinal, ideias e métodos tão antigos. 

 Escrevo. Apago. Volto atrás. Escrevo duas frases. Fico com dúvidas. Sinto-me deslocado. Não sou moderno. Eu sei. Escrevo sobre o amor. Escrever sobre o Ronaldo teria mais leitores. Amor? Sim, fui encontrá-lo em Sacavém. 

À direita, um edifício gigante abandonado. Também ali já trabalharam centenas de pessoas. Agora é um esqueleto. À esquerda, outro edifício espera pela morte anunciada. Mulheres de azul transformam-se em guardiãs da dignidade. Trabalharam anos ao minuto. A um ritmo desumano. Para produzirem cada vez mais. Meia hora para almoçar. Ao segundo. Os modernos deixaram de pagar salários. Os modernos queriam levar as máquinas. As mulheres, antigas, com sabedoria, montaram a vigília. Unidas, defenderam ao minuto o mais elementar direito, o seu salário. 

Fizeram da berma da perigosa estrada a sua cozinha, a sua despensa, a sua sala de estar. Da fogueira, o seu aquecimento. Sol, chuva, vento, frio, nevoeiro. Força, desencanto, alegria, lágrimas. Muita solidariedade. Dos que sempre a manifestaram. Afectos de quem sempre os deu e não os descobriu agora para posar em frente a uma câmara de televisão. Desta vez faltou à chamada. Na manhã que souberam que não era mais necessário guardar o portão branco, as mulheres abraçaram-se genuinamente, gritando, rindo e soluçando. Eu também, escondido na minha câmara fotográfica, deixo que os olhos humedeçam. 

 No passeio em frente à fábrica, uma linha de cadeiras está agora vazia. As mulheres não conseguem estar sentadas. A espera acabou. Sentado numa caixa vermelha descanso as pernas e olho para aquelas mulheres. Que lição de vida me estavam a oferecer. Ali estava a luta, o amor. Eu não podia estar distante. Nenhum português devia estar distante. Fiquei feliz por elas. Aquelas mulheres exploradas até ao tutano trabalhavam com amor. Gostavam do que faziam. Parece um contra-senso. Exploradas ao minuto, mas felizes. Só se explica porque já eram umas guerreiras. 

 A sua luta de dias infindáveis deixará sementes. Poderão nascer árvores. E debaixo delas poderá nascer amor.

Adriano Moreira

01 fevereiro 2018

a invenção da paisagem


A noção de paisagem e sua realidade apreendida são de facto uma invenção - um objecto cultural sedimentado, tendo a sua função própria, a de garantir permanentemente os quadros da percepção do tempo e do espaço. Ela foi pensada e construída como um equivalente da Natureza; assim, graças à paisagem, teríamos um olhar veradeiro sobre os produtos da natureza.

cuidado contigo, cuidador!

Vamos levantar-nos? Vamos virar-nos? Vamos almoçar? Vamos vestir-nos? É assim que as nossas cuidadoras e cuidadores se dirigem normalmente a nós dependentes.

Costumo, em tom de brincadeira responder que quem se vai levantar, vestir, ou virar sou eu e não eles. Alguns, também a brincar, respondem que sem o seu apoio não realizo nenhuma dessas atividades, que a coisa é feita em conjunto, daí o vamos a isto e aquilo.

Têm razão. Sem eles não seríamos nada. Eles fazem parte de nós. Sem o seu apoio não funcionamos. É assustador pensar e sentir que não somos donos das nossas vidas. Que dependemos de alguém para praticamente tudo. E quando estou a referir tudo, sei do que falo. Refiro-me às tarefas mais básicas como por exemplo beber água, abrir uma porta, virar-me na cama, proteger-me do frio…

E não damos pouco trabalho. Veja o meu exemplo de me levantarem da cama:
-Desviar a roupa da cama para trás;
-Tirar-me a almofada de posicionamento do meio das pernas e a calcanheira;
-Virar-me de costas e posicionar-me no centro do colchão;
-Realizar-me a higiene íntima e desinfetar o orifício da suprapúbica e o cistocateter;
-Despejar o saco coletor de urina;
-Acomodar o saco coletor de urina no corpo;
-Vestir-me peça a peça de roupa;
-Encostar a cadeira de rodas ao lado da cama;
-Transferir-me para a cadeira;
-Calçar-me;
-Encaixar as peças de segurança na cadeira de rodas;
-Colocar água nas garrafas;
E na maioria das vezes executo algumas tarefas, como por exemplo vestir algumas peças no tronco, lavar o rosto, escovar os dentes, pentear-me, perfumar-me, desfazer a barba com máquina de barbear…

Leram bem. Muita coisa. E só me estou a referir a uma das tarefas diárias. Tanto trabalho a cargo de quem escolheu ou não nos apoiar. Dia de banho e treino intestinal (geralmente dia sim, dia não) o trabalho é a dobrar. E não são tarefas fáceis. Damos muito trabalhinho e eu sei disso. Dependemos deles e pedimos-lhes muita coisa. Mas não tudo o que precisamos.

Depender dos outros. Até hoje foi um problema que não consegui resolver dentro de mim. É algo que me incomoda muito. Faz-me mal sentir que dependo de alguém para tudo. O pedir isto, depois pedir aquilo, e de seguida outra coisa. E como escrevi acima, não pedimos tudo que precisamos.

Exemplo: quando nos deitamos e caso estejamos com frio, pedimos para nos colocarem roupa que achamos ser suficiente para nos aquecer, mas horas depois acordo cheio de calor. Claro que não vou acordar alguém para me retirar roupa da cama! Sou incapaz de o fazer.

Quem nos rodeia costuma dizer com frequência. Se precisares de mim é só avisar. Mas claro que no geral evito ocupar as pessoas. Mas se verifico que a oferta é de coração e genuína, não deixo de pedir apoio. Nesse caso faço-o não porque gosto, mas porque vejo nos olhos da pessoa que está a fazer algo com prazer. É a única circunstância que consigo pedir algo sem grandes rodeios.

Seja num lar, ou nas nossas casas, cuidar de nós não é tarefa fácil. Admiro muito quem o faz de coração, e de uma maneira descomprometida. Eu penso que não seria capaz de ser assistente de alguém nas minhas circunstâncias.

Urge iniciar a filosofia de Vida Independente. Só assim teremos alguém que nos auxilie de corpo e alma, e não por favor. Alguém que possamos sentir como sendo nosso apêndice, nossas pernas e braços, e pago de acordo com as suas funções, e munido de Produtos de Apoio, que lhes permita auxiliar-nos de maneira adequada, e sem pôr em risco a sua saúde.

Foi publicado em outubro último, o Decreto Lei nº 129/2017 que cria o Modelo de Apoio à Vida Independente no nosso país. Consiste na disponibilização de assistentes pessoais por parte do Estado, a pessoas dependentes, e definiu o seu vencimento mensal em 900€ por 8 horas diárias de trabalho.

Mas como a maioria das respostas sociais para pessoas com deficiência, também este apoio continua a ser uma intenção. De outubro para cá pouco ou nada aconteceu. Continuamos a depender do favor de quem nos cuida em lares, nossas casas, etc. Só com um assistente pessoal, remunerado conforme a sua categoria, poderei olhar para quem me auxilia, como alguém que está ali por opção e por gosto e não por obrigação.

Enquanto o Estado continuar a optar pela nossa institucionalização, e a obrigar as nossas famílias a cuidar de nós, não nos deixaremos de sentir um peso e uma cruz nas suas vidas.

Ass: Eduardo Jorge (tetraplegicos@gmail.com)