27 abril 2023

Discurso de Rui Tavares na AR no dia 27.04.2023

É preciso que alguém o diga, é preciso que alguém o diga nesta data e é preciso que
alguém o diga a partir deste lugar. Então não percamos tempo. Di-lo-ei a abrir o debate: 

nossa democracia não só não está garantida como vive o maior momento de risco à sua existência desde o período pós-revolucionário. Os 50 anos do 25 de Abril serão a ocasião de celebrar tudo o que conquistámos em conjunto. Estes 49 anos devem servir para alertar para tudo aquilo que podemos perder.

Não é inédito. Nenhuma democracia está completa ou é perfeita. Todos os regimes
democráticos têm os seus inimigos, mais ou menos competentes, mais ou menos
inteligentes, mais ou menos assumidos.

Dependendo das circunstâncias e da vontade de poder que nunca lhes falta, aviltar e esvaziar uma democracia não é sequer difícil.

Não procuremos coerência nos novos autoritários, a não ser a vontade desmedida de mandar, porque qualquer coerência seria um entrave a essa mesma vontade desmedida de mandar. 

Eles dizem-se os mais conservadores de entre os conservadores, mas acabam a invadir o Capitólio e a defecar na Praça dos Três Poderes. Eles afirmam-se patriotas, mas não desdenham enxovalhar o seu país e os dos outros. 

Eles demonstram ser incapazes de aceitar a mais mínima crítica, mas têm na rua cartazes nos quais misturam suspeitos de crimes e políticos comuns e nos quais insinuam mais ou menos veladamente, mais ou menos descaradamente, a eliminação de adversários. Se um dia houver uma mão mais ou menos transtornada que passe ao ato, eles negarão qualquer culpa.

Mas não nos deixemos encadear pelos casos mais espetaculares. Os mais discretos é que nos hão de preocupar. Conheci bem, por dever de ofício, um desses, dos mais competentes, dos mais inteligentes. 

Hoje há rádios, jornais e televisões que foram fechados, universidades que foram expulsas, milhares de adversários estão fora do país, todos os tribunais e autoridades independentes foram capturadas, e apesar do discurso anticorrupção do início — ou se calhar por causa dele... — o genro, o irmão e o pai e até amigos de infância do primeiro-ministro tornaram-se dos homens mais ricos do país, à conta dos fundos europeus que todos pagamos. 

A propósito: a Presidente que este primeiro-ministro escolheu, sem passar pelo voto popular, visitou este Parlamento ainda há poucas semanas.

Ninguém protestou e toda a gente soube respeitar, porque o sentido patriótico e de estado, para a grande maioria de nós, ainda não é opcional.

O principal risco para a democracia não está nos autoritários, que serão sempre uma minoria, mas naqueles que lhes derem a mão. O que é preciso é que todos aqui dentro saibamos é que uns e outros ficarão manchados na história do nosso país.

O principal risco para a nossa democracia é aceitarmos a intimidação e a dominação da agenda pelos autoritários. Por isso, tratemos de esconjurar esse risco, agora e hoje e sempre. Esta tarde estarão na Avenida da Liberdade — certamente com pouca atenção mediática — muitos mais milhares defensores da democracia e do 25 de Abril do que há seus inimigos. Haverá sempre mais portugueses a defender a liberdade do que o autoritarismo. Saibamos confiar nos democratas e dar-lhes confiança.

Tenho orgulho de pertencer a um povo que dirá sempre que for necessário: 25 de Abril Sempre! 

Não voltarão.

06 abril 2023

a memória diz aproveita o agora!

Ninguém nunca a recupera. A vida simplesmente foge-nos! 
Nunca volta, por mais que tentemos, que queiramos. Esta é a lição a reter ou nos adaptamos ou morremos. 

A IDADE DO VICIO, DEEPTÍ KAPOOR


Para mais  tarde recordar este tempo de agora 'fiz parte disto, que bom!' 

Hoje reencontrei um amigo Tiago, o Testas, numa sociedade onde, às vezes, costumo ir almoçar e foi como se estivesse no cinema a ouvi-lo, o tempo todo a rir, e a recordar o tempo do ciclo, do preparatório. 

Depois para mim, pensei nos temos do secundário (noutra escola) e na faculdade e ainda me lembrei dos infantários e da escolas primárias!

Revi as minhas andanças futebolísticas, fiz o meu CV e foi bom!!!

Carta de amor do Mal (Bruno Nogueira)

Andam aí muitas liberdades e já sabemos no que é que isso dá, a dizeres frases feitas na assembleia, de joelhos na braguilha do populismo, a chupar aquilo tudo até ao fundo da garganta, com o populismo todo enfiado na boca.

ANDA CÁ MEU MENINO, senta-te aqui ao meu colo, deixa-me falar contigo um bocadinho, tu ainda vais fazer grandes coisas, estás a ouvir o que te digo, vais ensinar a estes gajos todos quem é que manda nisto tudo, eles todos a verem-te de fato e gravata a dizeres das boas, deus, pátria, família e trabalho para cima deles, meu lindo Salazar de borracha, meu rico menino, tão pequenino e já a mandar os ciganos para onde eles merecem ir, os pretos que voltem lá para Angola ou para Moçambique ou para Cabo Verde, ou lá para onde eles vivem que aquilo ainda é nosso, cá só queremos aqueles que têm a pele como a tua, que é a pele de quem sabe o que a vida custa, sempre a darmos hipóteses a esses sujos de pele mal-agradecidos, os portugueses de bem que fiquem cá, a tomar conta de ti e de quem estiver ao teu lado. Tão lindo, sempre a dizer o que o desespero quer ouvir, uma igreja universal do reino de deus em forma de gente, um menino que só quer a atenção dos crescidos, sem uma ideia nessa cabecinha, tão bonita essa cabecinha que é um barco à vela, cheio de vontade de brincar aos ditadores, a dar umas palmadinhas nas costas dos grandes ditadores deste mundo, que isto já só lá vai com meninos como tu, a remexer em dois cadáveres ainda quentes para mandar os Afegãos lá para a terra deles, a atirar culpas para todo o lado, os corpos ainda quentes, acabados de ser esfaqueados e tu já ali a esfregares o sangue na cara de toda a gente como se fosse o teu, as famílias a revolverem-se em dor e raiva e tu ali a manchar o luto com cuspo e propaganda, que agora é que se tem de aproveitar para se dar um empurrão aos votos, onde cheira a tragédia cheira a campanha, que orgulho tão grande meu doce menino, nem imaginas, um monstro que vê na morte um trampolim, tu é que sabes andar nisto meu amor, meu grande e pequenino amor, aprendeste comigo, até chorei quando te vi fazeres aquilo acreditas, eu que não me comovo com nada, sabes tão bem ser um cretino, só tive pena que não tivesses ido ao funeral chorar, ias fazer aquilo tão bem, até ia parecer que estavas a sofrer, ias todo de preto como as famílias que perderam os familiares que tu vampirizaste, ias ser o meu orgulho, mas tiveste medo, achaste que se calhar até para um monstro há limites, mas fizeste mal, tu tens o mundo todo à tua frente, não há limites para quem quer ser alguém, meu menino tão lindo, já a conseguir contorcer-se todo, sem coluna nenhuma, uma sanguessuga de fato, um abutre a rondar a morte para encher a barriga, não ligues às críticas, não caias nessa armadilha, eles têm inveja de alguém sem escrúpulos como tu, alguém que vende o corpo para se fazer homem. Estás tão crescido meu pequenino, já sabes ser vazio, pareces mesmo um menino crescido, ali a dizer aquelas frases de quem não tem dignidade nenhuma, de quem já faz o que for preciso para que olhem para ele, uma prostituta do discurso de ódio, por favor olhem para o meu menino, não estão a ver que ele precisa de atenção, ele quer o país dele limpo, mas há mal algum nisso, agora é tudo fascista por menos de nada, aquela de França, aquele do Brasil, todos tão orgulhosos de ti, esses meninos tão lindos que já fizeram tão bem a este mundo, a destruir a alegria e a liberdade, a limpar aquilo, que isto anda arejado demais sabes, andam aí muitas liberdades e já sabemos no que é que isso dá, a dizeres frases feitas na assembleia, de joelhos na braguilha do populismo, a chupar aquilo tudo até ao fundo da garganta, com o populismo todo enfiado na boca, tu sabes o que vende, ser oco de ideias e cheio de populismo vende, já estás pronto, sabes dizer uma coisa asquerosa aqui para dar notícia, e depois ser um cordeirinho manso ali, assim estás bem com deus e com o diabo, sabes que é importante cuspir ódio num jornal com uma frase que chame a atenção daqueles que são como tu, que antigamente é que isto andava bem, agora vieram estes sacanas e deram cabo disto tudo, tu é que vais endireitar o país, a lamber as sarjetas todas, e depois no dia a seguir pões essa carinha que só dá vontade de puxar essas bochechas, de quem afinal não disse nada daquilo que disse ontem, não foi isso que eu disse senhor jornalista, você percebeu mal, és muito habilidoso, porque assim a frase já está dita, és como os lacraus, que se escondem debaixo das pedras, uma pedra não morde, não mexe, é uma pedra caramba, mas se uma criança a levantar leva uma picada do lacrau e fica a torcer-se de dor, até pode morrer, tu és a pedra e o lacrau, sabe-la toda, já fizeste um amigo como tu noutro partido, porque também lhe cheira a poder custe o que custar, atropele quem atropelar, assim são pedras e lacraus juntos, são o melhor dos dois mundos, encontraste um amigo para brincar no recreio, podem trocar cromos no intervalo, ver quem tem o cromo que vale mais sangue, tenho muito orgulho em ti, nunca te esqueças disso, fazes-me lembrar eu com a tua idade, a mergulhar em tudo o que é lodo e a dizer que contigo vai ser tudo diferente, que vais fazer este país grande outra vez, um navegador de tragédias, um perdigueiro da fraqueza, um balão de frases feitas, um catavento da miséria.

Agora descansa, meu menino, descansa que amanhã há mais mal para fazer.

01 abril 2023

Ajuste de contas com a amizade (por Bruno Nogueira)

Já houve alturas na vida em que achei que uma relação amorosa se sobrepunha a tudo o resto, que entrava e não tinha de pedir licença a nada nem ninguém, que as amizades eram satélites que circulavam sem correrem o risco de explodir e ficar só uma breve memória.

TODOS OS ANOS faço uma lista dos amigos que convido para os meus anos, e depois guardo-a. Foi um hábito que começou não sei bem como, mas que fui mantendo não sei bem porquê. Quando volto a essas listas, percebo que há nomes que estão presentes em todos os anos, e outros que desapareceram. Outros novos que surgem e que depois se vão mantendo ao longo de muito tempo, não se sabe até quando. Há amigos breves, que aparecem e que desaparecem consoante as relações amorosas em que estamos nessa altura. Ou em que eles estão. Casais de amigos que deixaram de o ser, e que nos deixam órfãos de um dos dois, tal como eles ficam órfãos de um de nós. Uma separação de um casal é também uma separação de amigos. Nas partilhas desse fim, há sempre movimentações que nos deixam desequilibrados, movimentos migratórios, até fazermos as pazes com o que fica. Aquele amigo era mais amigo da outra pessoa, e o outro era mais nosso, não há muito que saber.

A explosão que provoca uma relação amorosa anestesia tudo o que está à volta. Suspende o tempo, e espera por nós para o que for preciso. Esta é a versão que nos serve melhor, mas a verdade é que quando o peito volta ao normal, o tempo continuou a contar, as vidas de toda a gente seguiram o rumo que tinham que seguir, e os amigos que já lá estavam antes do nosso baque foram-se transformando noutras coisas que é possível que tenhamos perdido de vista.

É muito mais fácil perder um amigo do que se pensa. Mas é possível que não se perceba logo, distraídos que estamos com os dias que se atropelam uns aos outros, e que são sobretudo sobre nós. Uma amizade vai-se perdendo aos poucos, como se fosse uma discreta fenda que não se vê logo, mas que ao fim de algum tempo mostra tudo o que está em falta.

Nem sempre conseguimos estar à altura do que uma amizade exige de nós. Já houve alturas na vida em que achei que uma relação amorosa se sobrepunha a tudo o resto, que entrava e não tinha de pedir licença a nada nem ninguém, que as amizades eram satélites que circulavam sem correrem o risco de explodir e ficar só uma breve memória, que aguentavam tudo, que os danos causados seriam facilmente reparáveis, porque é assim que uma amizade funciona. Que se os amigos gostarem mesmo de nós, vão entender todas as nossas falhas, caprichos, ausências, e violentos cortes profundos.

É só quando acaba uma relação e somos confrontados com os estilhaços, é que entendemos que no orçamento final existiram sempre amizades que saíram a perder e não tiveram a atenção que um bem tão precioso como este merece. O preço de reparar uma amizade que foi maltratada por nós é altíssimo. Tem de se ir a um sítio escuro e fundo, uma cave que escavámos mas onde não queremos voltar, e acender uma luz para que se entenda o que se perdeu, o que foi que se estragou com o tempo, o que foi que resistiu, o que está irremediavelmente danificado, e o que é possível de reparar, mas nunca ficará como dantes, porque se notam as costuras. Uma amizade não tem de ser à prova de tudo, porque uma amizade é feita de pessoas que não são à prova de tudo.

A frase “podemos não estar juntos 5 anos, mas quando nos vemos é como se nunca nos tivéssemos afastado”, é um embuste, uns confettis que atiramos para o ar para que não se perceba que, algures no tempo, houve uma seleção natural que aconteceu, da qual aquela pessoa não fazia parte.

“Nunca mais disseste nada” é uma frase egoísta que, embora não pareça, está a ser dita para os dois lados. O que a pessoa está a dizer é: “tu nunca mais disseste nada, e eu também não. Mas se eu disser primeiro, ficas tu a pensar nisso”. É uma frase que ajuda mais quem comete o delito do que a quem sofre o mesmo. Porque ajuda a avançar, e resolve dentro de nós uma série de problemas que as nossas ausências já não vão a tempo de resolver. Quer provocar ao outro o que temos medo que provoque a nós. Sabemos que também falhámos, e atiramos para o ar um “temos de combinar qualquer coisa”. E a verdade é que não temos, senão já o tínhamos feito. Mas sabe tão bem fazer de conta que queremos, que até nos livra de termos de pensar na razão pela qual não combinámos essa qualquer coisa há tantos anos.

Não é fácil aceitarmos que há amigos que não são para sempre, são para um período da nossa vida em que sermos amigos era a mesma coisa para um e para outro. Depois muda a idade, muda a vida, o trabalho mete-se pelo caminho, aparecem filhos, os gostos mudam. O divórcio numa amizade nem sempre é de comum acordo, ninguém quer perder o que acha que é seu. Mas no fim, nenhuma amizade se aguenta sem ter onde se agarrar.

Entre perdas e ganhos, essas listas lá me vão ajudando a saber quem fui. E quem julgo que sou. E isso já é muito peso para uma folha de papel.

Texto escrito segundo o anterior acordo ortográfico