06 fevereiro 2024

A sobreposição de Lisboa in DN

por António Brito Guterres 

(TRAFICANTE DE SONHOS)

O atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa não nasceu na cidade. O seu antecessor também não, e o último presidente da câmara nascido na cidade não era branco. Para quem como eu cresceu em Lisboa, é tudo normal, e seria uma normalidade ainda mais merecida se as suas elites fossem a cara da diversidade histórica e atual.

Em 2018, um estudo da Universidade Católica apoiado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre Identidades Religiosas e Dinâmica Social na Área Metropolitana de Lisboa remata que, dos inquiridos - uma amostra com base no perfil da população -, apenas 33% dos seus habitantes nasceram na região.

Escrito de outra forma, isso quer dizer que 66% da população da Área Metropolitana de Lisboa nasceu noutro sítio, sejam outras localidades do país, Europa, Ásia, América ou África.

Por isso, não é de surpreender que, em 2020, a autarquia de Lisboa tenha definido a cidade - de forma unânime - como antirracista.

Mais audaz, é a candidatura da capital portuguesa a Património Mundial da UNESCO como Lisboa Histórica Cidade Global sugerindo a sua história passada, os “Descobrimentos” e a diversidade de povos presentes em Lisboa como indicadores da primeira cidade global. Digo audaz, porque essa promoção histórica esconde que boa parte dessa diversidade de povos não era livre.

Essa tentativa de ocultar alguns processos históricos é parte da sobranceria de uma suposta sociedade ocidental tolerante que nos impede de olhar realmente para o que somos e permite simularmos que somos outra coisa.

Sobre o nascimento de Lisboa, tanto do ponto de vista mitológico - como cidade fundada por Ulisses -, como do das disputas históricas que a colocam como povoado fenício, cartaginês ou tartesso, em todos os casos, a cidade é composta por populações dos dois lados do Mediterrâneo.

É de interesse geral saber que após o Período Pré-histórico, a população de Lisboa se baseava estruturalmente em berberes com influências fenícias e de Cartago. É essa a população - base de uma Lisboa posteriormente existente, que substituiu e assimilou as últimas comunidades de caçadores - recoletores da região. Somos mouros, portanto.

Do período árabe, há alguns fatores distintivos da cidade. Ibn Hude al-Gudame foi um escritor negro que foi nomeado Váli (governador) de Lisboa no século X, o primeiro caso na península e de acordo com José-Augusto França “a aceitação do negro al-Gudame como governador (...) não deixará de significar uma abertura de espírito dos habitantes da cidade”.

Também vos podia falar da alface (palavra árabe) que veio definir a alcunha dos seus habitantes, ou da forma como atribuímos a categoria de saloios aos habitantes da sua periferia rural, cunho derivado do grupo de muçulmanos que eram taxados para cultivar fora das fronteiras do burgo.

Podemos lembrar, aos que estão tão preocupados com os que vêm de fora, que foram os Cruzados, um grupo de estrangeiros formado por flamengos, normandos, ingleses, escoceses e germanos, que conquistaram a cidade para ser anexada ao reino de Portugal, numa guerra santa que incluiu o saque, violações em massa e a decapitação do seu bispo (sim, as três principais religiões monoteístas conviviam na cidade).

E não esquecer a forte influência negra na cidade, propositadamente esquecida e arrumada em categorias marginais da aprendizagem. Saber que há 600 anos e durante séculos, onde agora é a Madragoa e a Lapa, havia o Bairro do Mocambo, um bairro formal e fiscal, com a originalidade de ser o único bairro na Europa com uma denominação de língua africana: umbundo.

Os africanos que, enquanto pessoas escravizadas vindas diretamente de África ou do Brasil, contribuíram com a fofa e com o lundum para a fruição que originou o fado, ou para o estabelecimento de uma das mais importantes romarias religiosas da cidade até ao Santuário da Atalaia, no Montijo.

Da história e do presente, nunca houve substituição em Lisboa, mas sim sobreposições: de civilizações e pessoas, em que quem vem fica, montando a sua vida sobre o que existe e acrescentando de si, construindo novos entornos.

Uma marcha sobre Lisboa, contra a sua islamização e com tarjas anunciando que vão “reconquistar Lisboa aos Mouros”, só não é caricato porque sabemos o que querem, mas faz lembrar aquela vez em que um grupo de nazis portugueses foi à Alemanha conviver com os seus congéneres e foram expulsos, por serem mouros.

Pelo caminho, e tendo em conta que o líder do Chega já falou várias vezes - inclusive no Parlamento - sobre a teoria da substituição populacional em curso e sabendo que elementos do Chega estão envolvidos na mobilização para hoje, 3 de Fevereiro, o tempo que se dá a André Ventura nos media podia servir para saber o que diz sobre este assunto, não?


Investigador

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