5.21.2017

Euforias de cá, depressões de lá


O nosso Presidente – sumo-sacerdote do optimismo que tanta falta nos fazia – veio anunciar outra previsão encantatória de crescimento para o final do ano: 3,2 por cento.

Para quem se habituou a queixar-se tanto, como os portugueses, das amarguras do destino – ou talvez por causa disso… –, foi mesmo uma bebedeira de proporções épicas. Tivemos quase em simultâneo e em directo nas televisões a reedição dos três F (Fátima, Futebol e Fado), ainda que o terceiro tenha sido argutamente substituído por uma enternecedora e «caetano-velosiana» balada que triunfou no Festival da Euro-visão. Já o Benfica ganhou o campeonato nacional e não a Liga dos Campeões (embora o parecesse, com tanta gente em êxtase, num efeito mimético da vitória da Selecção no Europeu de 2016). E o Papa Francisco veio santificar os dois pastorinhos no momento em que a nova mitologia de Fátima reduz as aparições a meras visões, tornando por isso ainda mais enigmático o seu mistério (e deixando a irmã Lúcia de fora) …
Mas como se tudo isto não bastasse para explicar a euforia, os indicadores registaram um crescimento económico inédito em tempos recentes, com o número mágico de 2,8 por cento. E, para compor o ramalhete, o nosso Presidente – sumo-sacerdote do optimismo que tanta falta nos fazia – veio anunciar outra previsão encantatória de crescimento para o final do ano: 3,2 por cento. Já o primeiro-ministro, apesar do seu «optimismo irritante» (segundo o Presidente), não se atreveu a comentar, porventura com receio de quebrar o encanto…
É bom demais para ser verdade? Pois é, mas seria preciso ainda acrescentar, além do boom do turismo, o enamoramento das vedetas do showbiz planetário por Portugal e em especial por Lisboa: a última a chegar e a pretender ser nossa conterrânea foi, nem mais nem menos, Madonna. Temos a de Fátima, ficamos agora com a sua versão mais maliciosa.

A propósito de euforia, poderemos partilhá-la com os franceses (e os pró-europeus de todas as latitudes) à procura de convalescer da depressão das últimas décadas, na sequência da vitória de Emmanuel Macron e da nomeação do seu Governo chefiado por Edouard Philippe, prometedor discípulo de Alain Juppé (apontado como favorito das presidenciais antes de ser derrotado nas primárias da direita).

Apesar das trapalhadas – aqui referidas há uma semana – na constituição das listas eleitorais, que ameaçavam comprometer a credibilidade de uma futura maioria presidencial, Macron conseguiu atingir, aparentemente, a fórmula que permitirá recompor a paisagem política francesa, para além das fronteiras da esquerda e da direita em ruínas – e hoje entrincheiradas nos extremos populistas de Mélenchon e Le Pen. A arquitectura engenhosa da equipa Macron-Philippe, com a inclusão do líder ecologista Nicolas Hulot entre sociais-democratas, centristas e gente não alinhada da sociedade civil, promete, pelo menos, criar um quadro político novo, influenciando o desbloqueamento da crise europeia.
Acontece, porém, que do outro lado do Atlântico os motivos de depressão precipitaram-se vertiginosamente. No Brasil, o Presidente Temer estava neste fim-de-semana à beira da destituição, arrastando com ele todo um sistema parlamentar e governativo gangrenado pela corrupção desde os tempos épicos de Lula – o que implicaria pouco menos do que uma revolução. Já quanto a Trump, tudo ultrapassa o inimaginável, mesmo para quem via o caos instalar-se a uma velocidade meteórica na Casa Branca.

As Américas vivem duas situações insustentáveis e nenhuma saída para elas se apresenta particularmente auspiciosa. Por uma vez, pelo menos, podemos cultivar a sorte de sermos europeus (e portugueses). É uma ilusão passageira, decerto, até porque não vivemos em mundos estanques e desconhecemos o que virá a seguir. Mas é, apesar da ironia, um convite para combater as tentações depressivas. 

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