16 março 2020

há males que vêm por bem



Acredito que o Universo tem a sua maneira de equilibrar as coisas e as suas leis quando estão viradas do avesso. 

O momento que vivemos, cheio de anomalias e paradoxos, dá que pensar.
Numa altura em que as alterações 
climáticas causadas por desastres ambientais chegaram a níveis preocupantes,
primeiro a China e depois tantos outros países vêem-se obrigados ao bloqueio. 
A Economia colapsa, mas a poluição diminui consideravelmente. 
O ar melhora; usam-se máscaras, mas respira-se.

Num momento histórico em que algumas ideologias e políticas discriminatórias,
com fortes referências a um passado mesquinho, estão a reactivar-se em todo o planeta,
chega um vírus que nos faz perceber que, num instante, podemos ser nós os
discriminados, os segregados, os bloqueados na fronteira, os portadores de doenças. 
Mesmo que não tenhamos culpa disso. Mesmo que sejamos brancos, ocidentais e
viajemos em classe executiva.

Numa sociedade fundada na produtividade e no consumo, em que todos nós
corremos 14 horas por dia na direcção não se sabe muito bem de quê, sem
sábados nem domingos, sem feriados no calendário, de repente chega o “parem” fechados,
em casa, dias e dias. A fazer contas com o tempo do qual perdemos o valor. 

Será que ainda sabemos o que fazer dele?

Numa altura em que o acompanhamento do crescimento dos filhos é, por força das
circunstâncias, confiada a outras figuras e instituições, o vírus fecha as escolas e
obriga a encontrar outras soluções, a juntar a mãe e o pai com as crianças.
Obriga a refazer família.

Numa dimensão em que as relações, a comunicação, a sociabilidade se processam
principalmente no “não-espaço”do virtual, das redes sociais, dando-nos uma ilusão
de proximidade, o vírus tolhe-nos a verdadeira proximidade, a real: que ninguém se toque,
nada de beijos, nada de abraços, tudo à distância, na frieza do não contacto. Até
que ponto dávamos por adquiridos estes gestos e o seu significado?

Numa altura em que pensar no próprio umbigo se tornou regra, o vírus envia uma mensagem
clara: a única saída possível é através da reciprocidade, do sentido de pertença, da comunidade,
do sentimento de fazer parte de algo maior, de que cuidamos e que pode cuidar de nós.
A responsabilidade partilhada, o sentir que das nossas acções depende não apenas o nosso
destino mas o de todos os que nos rodeiam. E que dependemos das deles.

Por isso, deixemos-nos da caça às bruxas, de perguntar de quem é a culpa ou porque é que tudo
isto aconteceu.e perguntemos antes o que podemos aprender com isto. Creio que temos todos muito
para reflectir e fazer. 

Porque para com o Universo e as suas leis, evidentemente, temos uma grande dívida. 
Explica-nos o vírus, com juros muito altos.”


Morelli 

Sem comentários: